"(...)Depois de um dia todo puto com aquela bobagem, Joaquim foi ao "muquifo do Hermann", como gostava de falar. Todas as quintas-feiras ele ia ao supermercado, comprava uma caixinha de cerveja puro malte, aquelas mais fortes e requintadas, e se dirigia ao apartamento do amigo. Seriam mesmo amigos? Com certeza sim, dado que aquele estranho relacionamento não aconteceria entre simples estranhos.
Hermann. Joaquim estudou com ele durante algum tempo. Enquanto Joaquim descobria maravilhas comuns da juventude, como as coisas que você se sente incomodado de fazer, mas faz porque todos já haviam feito, Hermann descobria outras. Joaquim contava a Hermann suas coisas e este, por sua vez, confiando demais no julgamento ruim que Joaquim dava, não as fazia. O contrário não acontecia, Hermann não contava muita coisa a Joaquim. Falava de umas músicas, uns filmes, umas garotas. Acabava falando tão bem de tão poucas coisas que Joaquim já se sentia satisfeito e a amizade perdurava.
Até hoje Hermann esmiúça ao falar de suas coisas, mas essas coisas diminuíram muito ultimamente. Joaquim já não tem tantas experiências novas assim para contar; ocorriam umas variações ou outras, mas nada digno de uma interrupção da cerveja.Por isso a maior parte do tempo no muquifo de Hermann era ocupada por um silêncio inviolável. Os sons mais comuns no ambiente eram os barulhos de satisfação pela temperatura agradável da cerveja puro malte produzidos pela boca de Joaquim e os encontros entre gelos que se davam no copo de uísque de Hermann.
Joaquim ficava sentado torto em uma cadeira dura na sala, de modo que apenas as primeiras vértebras de sua coluna ficassem no encosto. Lia todo o rótulo da primeira cerveja e com as seguintes apenas observava o ambiente. Hermann sentava na única mobília destinada ao conforto em seu apartamento, a poltrona. E lá ficava, com as pernas cruzadas, balançando o copo de uísque e observando fixamente as pedras de gelo se batendo.
Depois da primeira lata de cerveja chegava Horácio com toda a sua esquisitice e seu sorriso simpático. Entrava, cumprimentava com um "boa noite" amigável e se dirigia à cozinha para fazer o suco.
Horácio. Joaquim e Hermann estudaram com ele algum tempo também. Era uma espécie de semi-deus bucólico que foi jogado por engano na cidade grande e por isso sofre. As pessoas o acham estranho, mas Hermann e Joaquim sabiam como era. Não que fossem estranhos os dois, Hermann talvez um pouco, mas ambos gostavam de gente esquisita ao redor.
Nos tempos de escola, Horácio filosofava e recitava poesia; isso acabou os unindo. Quem na verdade gostava muito de conversar com Horácio era Joaquim, Hermann apenas discordava. Quando Joaquim chamou Horácio pela primeira vez ao apartamento de Hermann, o dono do evento ficou tão puto que disse: "Da próxima vez que inventar alguma merda aqui, me avisa.". Desde então, Joaquim só sorria nos encontros. O mau humor de Hermann aliado à simpatia incomum de Horácio eram muito agradáveis para ele.
Talvez Horácio gostasse de provocar. Era o que preferíamos pensar no lugar da possível pureza melancólica que poderia estar invadindo seu coração. Ele levava frutas ao apartamento e fazia um suco, sentava em uma outra cadeira, mas com a coluna retinha e ficava bebendo e sorrindo. Hermann um dia lhe disse que para continuar ali, ele só poderia levar coisas insalubres para beber. Na outra quinta, Horácio levou um pacotinho de suco em pó. Joaquim gargalhava com isso.
Dos três, Joaquim era o mais sarrista, o tipo mais comum. Gostava de ouvir piadas, ir ao pagode nos finais de semana e pensava que Hermann só balançava aquele copo porque gostava do som que as pedras de gelo faziam. Horácio poderia pensar uma coisa muito melhor elaborada, como por exemplo, um arrependimento insolúvel, dada a inflexibilidade do tempo.
Hermann talvez só balançasse o copo por causa de uma mulher, um envelope na gaveta ou para que o uísque gele logo, mas o fato é que cada um pensava diferente do outro em relação ao outro.
Apesar do suco, do uísque e da cerveja. Apesar do simplismo de um, do romantismo de outro e do ceticismo do terceiro. Apesar de tudo havia ainda uma melancolia estranha que unia os três homens ali presentes e fazia de uma sala minúscula algo especial dentro de um mundo cheio de salas e pessoas.
O amor pela poesia é o mesmo, só o que muda é o poema predileto."
retirado dos rascunhos libertinos
Domingo, 11 de Fevereiro de 2007
dizia Joaquim:
M.F.
É que naquele mesmo dia eu estreei uma matéria no jornal, minha primeira, a sair na edição do dia seguinte. Em algum lugar da cidade rodavam as impressoras ao máximo enquanto conversávamos, e, de manhã, saía um estranho óbito na seção policial, alguém havia matado uma prostituta.
Assinado: E. Hermann. E desta vez, “da redação”, ao invés de “estagiário, matrícula: 2860-4”.
Mas a puta também tinha nome, e era Maria de Fátima, conforme indicava a legenda M.F. da matéria, como se puta mesmo morta tivesse que ter vergonha de ser o que é, ou de ter o nome que tem. Lembro como se fosse ontem.
Na madrugada de ontem, depois de receber uma denúncia anônima, a polícia encontrou num terreno abandonado situado ao largo da marginal x o corpo de M.F.S., 26 anos, profissional do sexo.
A vítima encontrava-se jogada em meio ao matagal, de bruços, e apresentava muitos hematomas em todo o corpo, além de marcas de queimadura, denotando a provável tortura a que fora submetida antes do homicídio ser consumado.
Segundo o médico do IML presente no recolhimento do corpo, num exame preliminar com base nos hematomas no pescoço da vítima, a provável causa da morte fora estrangulamento.
Segundo um delegado presente, a polícia já tem algumas pistas do assassino, e pretende seguir na investigação. Até o encerramento desta edição, não tivemos uma resposta positiva da mesma a respeito. Presumimos, assim, que a investigação continuará.
Nem pude contar a Camila que eu finalmente havia publicado. Na verdade, eu nem me lembrei; pensara nela o dia todo, precisávamos ter aquela conversa, mesmo sabendo o desastroso resultado que teria.
Segunda-feira, 29 de Janeiro de 2007
café
Gosto de ficar olhando para a cafeteira quando ela acaba seu serviço. Depois de fazer aqueles barulhos estranhos, da água se evaporando e depois o vapor se condensando, depois que a água passa pelo pó e pelo filtro e cai em gotas na jarra de vidro, formando bolhas sobre o líquido já preparado, quando acaba o gotejamento, e as espumas somem, o café fica uma superfície lisa completamente negra, às vezes mais ou menos avermelhada, mas sempre negra. E na jarra de vidro fica aquela superfície negra, lisa, perfeita, refletindo imagens que a gente não consegue identificar; gosto de observar a pequena máquina trabalhar.
Enquanto o café pinga, formando espumas, as gotas uma a uma deformando para depois tornar mais completa a superfície negra do café quente, eu espero calmamente observando a fumaça azulada do cigarro que sobe e dança e rebuliça e me vem no rosto e depois foge pela janela e desaparece. São pequenos prazeres, esses visuais: a superfície negra, densa, imóvel e eterna, e a fumaça azul, lânguida, fugaz e efêmera.
O café pronto, encho um copo até quase a boca. Pego o cinzeiro e o maço e o isqueiro, e me sento na escrivaninha. Há uma dúzia de pastas lotadas de contas, de créditos, débitos, transações, nomes e cifras. Será uma longa noite.
Domingo, 28 de Janeiro de 2007
Wellington & o Caça-Níqueis
II
E eu estava lá no Moacir no dia fatídico em que ele perdeu quase tudo.
Ninguém avisou o Wellington, mas naquela tarde (e naquele dia eu tirara a tarde de folga, e presenciei também isso) uma menina tinha tirado seiscentos paus da máquina, umas duas horas antes dele chegar ali. Ninguém avisou porque jogo é jogo, ninguém nem podia imaginar que o cara fosse jogar tanto, era dia vinte e seis, vinte e sete, se não me engano, data terrível em que a grana anda curta, todas as contas pagas e ainda a dois ou três dias do pagode mesmo cair. Mas o Wellington milagrosamente tinha arrumado um dinheiro, estava cheio dele e decidido a acabar com o chinesinho aquela noite.
Por ser muito fechado, jogava sozinho sem ninguém o acompanhar. E ninguém se preocupou quando ele começou a xingar. Xingava baixinho, como todo bom perdedor, nem tapas na máquina dava, em respeito ao Moacir. E, já que ninguém mais tinha grana para jogar, ninguém reparou que ele passara ali umas quatro horas jogando sem parar. Exceto o seu Humberto.
Naquele dia sentou-se ali o Armandinho, um velhote que era um barato. Sempre que me via sentado de costas pra rua, armava um escândalo, se entrasse uma mulher qualquer no bar, por mais feia que fosse, e eu não a abordasse, vinha logo lamentando a juventude de hoje, dizendo quena minha idade, ah esses jovens até parecem que não têm apetite sexual, e puxava o ele do final como um ele mesmo, e não o som de u que tem no final das palavras, um barato. E apesar disso, conversava sério, e quando encanava em conversar a sério tinha que ser era comigo, que era estudante e sabia das coisas. Naquele dia, tinha chegado com um jornal com algum escândalo financeiro de clubes de futebol e, mesmo sabendo que não era lá muito entendido do assunto, queria que eu o ajudasse a entender o que vinha acontecendo com o futebol. E com umas três cervejas, minha eloqüência já passava dos limites normais, e discutíamos há algumas horas, só eu e ele, o Humberto sendo o único no bar que olhava o Wellington jogando.
Já era tarde, mais de meia-noite eu acho quando convenci o Armandinho a não mais torcer por futebol. Foi aí que os poucos clientes ainda presentes, os velhos da tranca na mesa do fundo, eu o Humberto e o Armandinho, o Moacir e o Carlão que conversavam com a Gi no balcão, foi aí que todo mundo se ligou no que acontecia lá entre o Wellington e o chinesinho.
Puta que pariu máquina do caralho pô Moacir essa porra tá quebrada não é possível essa filhadaputa já me tirou dois paus.
Quarta-feira, 24 de Janeiro de 2007
De tiras e diretas
Ninguém nunca me explicou porque chamar policial de "tira". Eu mesmo nunca ouvi fora dos filmes. Provavelmente, naqueles setenta obscuros para o Brasil tricampeão, o lance de traduzir do inglês americano liberal-democrático fosse considerado pernicioso, ou, melhor dizendo, subversivo. Acho que na época se dizia "meganha" - até hoje meu pai fala baixo. Que dirá de coxinha...
Mas o que muito me espanta é esta expressão "tira".
Dos Dirty Harry de antigamente dá para tirar a lição de que a polícia fica fraca presa às leis; a maioria dos heróis do cinema policial daquela época são tiras leais à corporação, leais à manutenção da ordem e a moral, que odeiam profundamente os bandidos, e passam por cima de quaisquer leis para puni-los. Nico está acima da lei. Os métodos de Cobra são questionados pelos mais brutais membros da força policial. E Harry Callahan... bom, ele é Dirty Harry. Aliás, as leis são tudo, o problema é o protocolo...
Um exemplo clássico é Magnun 44 (Magnum Force, 1973): um tira durão como Callahan, conhecido por seus métodos pouco (ou excessivamente) ortodoxos ("Você é um campo de batalha ambulante") encara um grupo de vigilantes assassinos que andam à solta matando bandidos pela cidade, "disfarçados" de policiais. Depois de tornar-se o perseguidor implacável (1971), Harry passa a ser perseguido pela própria polícia, em vista da suposta ineficácia devastadora de seu método, e torna-se (como menino-propaganda da linha de armas de mão magnum – "Smith, Wesson e eu") um suspeito da série de homicídios executada pela gangue. Após algumas vaciladas, prova toda sua lealdade (e versatilidade) matando todos eles. Como o Seagal do começo, que batia pra valer e quebrava o recorde de fraturas expostas e mortes sangrentas em seus primeiros filmes ("Posso ganhar um A pelo esforço") - porque era acima da lei.
Essas lições são úteis ao autoritarismo soviét... quer dizer, ao espírito democrático militar brasileiro: nos mostram como essa história de direitos humanos pode virar um antro de corrupção. Lembrando que os setenta precisavam justificar os sessenta, e os meninos daquela época tornaram-se moços ao som do rei e dos tropicalistas. Ou desciam a Rua Augusta a cento e vinte por hora ou sabiam que Vai Passar; a polícia, de qualquer forma, não era sua amiga. Era ela quem batia nos jovens na rua. Eram eles, os milicos. Não os "tiras". E, assim, não se podia dizer, na tevê, meganha. Ou milico. E, muito raramente, "porco" – mas quem o dizia sempre saía com o nariz quebrado ou coisa pior. Assim, diziam (e ainda dizem nas tantas reprises), tira.
E tudo ficou mais forte com os tiras bonachões que combatem policiais corruptos enquanto tentam tirar a corregedoria de seu encalço destruindo toda a cidade: um tira da pesada, entre outros amáveis personagens da fórmula black&white: o mais das vezes, um negro engraçado e um branco mal-humorado, como o sociopata Riggs, que a meu ver só perde, já nessa época, pro detetive McClane, aquele que era duro de matar e não tinha amigo nenhum. Mas estes surgiram com a abertura democrática, o fim do bipartidarismo, as Diretas Já. Acompanharam, assim, o momento em que o a República Federativa dos Estados Unidos do Brasil saía das mãos de uma seqüência de presidentes coronéis militares para entrar nas mãos do povo, agora representado, e muito bem, por coronéis civis.
Com o passar do tempo, o Brasil tornou-se também um país democrático, como todo irmãozinho que cresce, e aprende. E acabou a crise do petróleo, fizeram até outra só pra dizer, olha só agora isso não me atinge e eu ainda saio por cima enforcando Saddam.
E, assim, a fórmula de hoje são os tiras orientais. Chineses, japoneses, o lance é saber lutar. Os parceiros já diferem: a única coisa que repete é que são eles quem falam. Os chinas só sabem mesmo é descer porrada.
Mas, aqui, no Brasil, continuamos com os tantos Peçanhas trazendo os Chicos Britos (hoje talvez não nas mãos, mas nos papas-defuntos) e os muitos guris. E veja bem, isso apesar dos atentados: temos até uma tal Força Nacional de Segurança Pública! Aliás, tínhamos, por exemplo, até ontem, um certo coronel Ubiratan: homem enérgico, policial à maneira antiga, fazia justiça com as próprias mãos. Os cento e onze riscos na carabina entravam até no número de sua candidatura – talvez por isso fora eleito deputado. Isso é que era tira.
Mesmo com toda essa transformação, os loques continuam sendo os tiras. Olha os tiras, cara, ou por que tornou-se um tira McClane, ou você é o pior tira que já vi ou coisas do tipo. Mas, tudo passa. Eastwood chegou a treinar uma mocinha no boxe, e Seagal agora é o defensor da natureza. Até o coronel morreu, que deusotenha. Restaram-nos como heróis apenas tiras do calibre de Jackie Chan – o que tornou a polícia definitivamente engraçada.
Segunda-feira, 22 de Janeiro de 2007
Sinais de idade.(pt2)
Foi quando vi os pêlos que percebi que meu nariz era torto.
Ter o rosto assim meio assimétrico, eu sabia que tinha; todo mundo tem, menos aquelas pessoas que se destacam muito pela beleza, no fundo todo mundo tem uma tortura em algum canto, uma sobrancelha que sobe mais que a outra, uma narina mais pra cá ou mais pra lá, um olho ligeiramente desviado do foco. No meu caso eram os dentes, que, lindos que eram, ainda pouco amarelados pelo café e o cigarro, eram perfeitos - em cima. Na mandíbula já tinha um dos incisivos meio pra trás, ou outros amontoados; um canino mais perto do centro que o outro, e é por isso que só conseguia dobrar a língua de um lado. Quando alinhava as dentaduras, o centro da maxila ficava longe do centro da mandíbula - nada que se notasse assim tão fácil, tinha que olhar especifamente para os dentes, e ainda assim só se notava o incisivo meio escondido. Eu sempre tive certeza que esse negócio da mordida ser meio torta influenciava em todo o resto; por isso afirmo, até hoje, categoricamente que tenho uma ruga de um só lado da testa é por causa desse dente. Também acho que é por isso que tenho o nariz meio torto. Ou que, no mínimo, a mesma razão que o deixou assim, influenciou naquele dente. Mas o caso, é que o dente torto, sempre o tive, mas o nariz só notei agora. Podem ser os pêlos, e, assim, a idade.
Domingo, 21 de Janeiro de 2007
porta-malas
Me amarra os pulsos com cinta plástica, coisa utilizada em ação especial de polícia disfarçada, já estão me enfiando no porta-malas; aliás, enfiando não, lançando, nunca vi alguém erguer tanto peso tão rápido quanto esse sujeito, me joga na mala, me dá um soco na cara, não pegou no nariz, mas no olho, quase desmaio, uma dor terrível se espalha pelo meu rosto e me deixa tonto, ao cair de costas (ela sempre brincava dizendo dix-coixtaix) no fundo do porta-malas eu tenho certeza que quebrei algum dedo, e meu braço esquerdo, acho que o antebraço, está muito quente, acho que quebrou também, cheguei a ouvir um crec, se bem que pode muito bem ser alguma coisa na minha cabeça, enfim, já me enfiaram no porta-malas e só agora estou mesmo consciente de que vão me matar. Putamerda, vão me matar, não falta muito, logo logo eu morro, deixo de existir mesmo, meu corpo provavelmente vai ser enterrado por aí, se não for queimado ou desmembrado, pelo menos decapitado, é o que fazem com jornalistas por aqui.
Então é assim que acaba
ג
Então é assim que acaba.
Você acorda no meio da noite.
Você ouviu, mas ainda não sabe.
Você acorda assustado, somos racionais. São gatos trepando.
O sonho era bom. Sonhos bons desaparecem sem deixar vestígios. Uma vaga lembrança, mais um sentimento de familiaridade, como se houvessem conversado ainda há pouco, me deixa saber que sonhara com ela. Só podia ser um sonho bom.
Ruídos. Deixe de lado a racionalidade e saiba que eles estão aqui.
Num movimento rápido, visto um moletom com capuz e zíper. Os óculos já estavam na cara antes mesmo de despertar. Estava para alcançar as calças quando ouço passos. São passos e um clic.
Um clic não, meu deus, um clic não!
(putaquepariumaispassos!)
Só penso nos envelopes sobre a escrivaninha, um dossiê que me valeu passos e um clic e um envelope cheio que me rendeu uma bela insônia.
O que aconteceu então é difícil dizer.
A cena muda para a rua, um homem, de óculos e seminu, vestindo uma blusa sobre uma regata branca e de cuecas samba-canção xadrez, com uma pasta nas mãos e um envelope recheado no bolso corre pela rua, descendo a ladeira em debandada carreira. A lógica é que já estivesse morto. Tinha um cara atrás de mim, mas corro como um atleta. Jamais esperariam isso de mim, nem eu sabia que corria tanto assim, mas corro. O cara devia estar muito bravo porque quebrei uma vassoura em sua cabeça, antes de sair pela porta da frente e descer as escadas saltando os degraus de três em três, sem nem esperar o sensor de movimentos acender as luzes.
Vale notar que ele era um tanto grande, talvez por isso a dificuldade em me alcançar.
Quando minhas pernas já queimavam de tanto correr, já há uns quatro quarteirões longe de casa, me surge da rua à direita um del rey escuro, roncando o motor e cantando os pneus. A curva brusca faz com que o escapamento raspe no asfalto, tirando fagulhas. Pessoas gritam lá dentro. Dou uma vacilada e guino à esquerda, o del rey manobrando para entrar no meu encalço. Um delegado uma vez disse que o bom no del rey é a mala, querendo dizer que é espaçoso o suficiente para caber um corpo; é melhor eu correr.
Pulo a cerca de um terreno amplo, que depois eu reconheceria como sendo a quadra de uma escola, como um bandido treinado. Me sinto o steven seagal no encalço de algum mal elemento, mas logo me lembro que sou eu o perseguido, e que não tenho toda aquela elegância no trote. Corro pela quadra semi-iluminada por uns holofotes sujos, um aceso outro não, estou no meio da quadra quando ouço o disparo. Algupem tava gritando pára filhodaputa, mas eu não obedeci. Foi o segundo que me derrubou.
Então é assim que acaba.
Nem adianta reclamar porque ouvira o clic antes. E um disparo errado e gritarem pára filhodaputa. Você tomou porque merecia.
Ferimento a bala é esquisito porque a dor vem retardada. Você ouve o disparo, cai, sente o calor do sangue brotando do buraco e escorrendo, sente que não vai conseguir mexer a perna, mas só quando passa o calor inicial é que começa a doer. No meu caso, ao ser colocado na mala espaçosa do del rey.
Então é assim que acaba.
Sexta-feira, 12 de Janeiro de 2007
Orelha, epitáfio
i
Há que se definir-me, na aba da capa se sobre mim for a história, ou na contracapa caso seja eu a escrevê-la, ou num epitáfio em um túmulo humilde, como um ser humano, no caso, um estudante; os estudantes se distinguem dos demais seres humanos por possuir, de modo geral, pouca idade, pouca experiência, pouco dinheiro e muitos sonhos, e o estudante em questão chama-se Hermann; os seres humanos são animais mamíferos, bípedes, que se distinguem dos outros mamíferos, como a baleia, ou bípedes, como a galinha, principalmente por duas características: o telencéfalo altamente desenvolvido e o polegar opositor. O telencéfalo altamente desenvolvido permite aos seres humanos armazenar informações, relacioná-las, processá-las e entendê-las. O polegar opositor permite aos seres humanos o movimento de pinça dos dedos o que, por sua vez, permite a manipulação de precisão. O telencéfalo altamente desenvolvido, combinado com a capacidade de fazer o movimento de pinça com os dedos, deu ao ser humano a possibilidade de realizar um sem número de melhoramentos em seu planeta, entre eles, fotografias de hmicídios e outros casos bizarros. Dir-se-á, talvez, que Hermann não gosta de urinar ao lado de outras pessoas, nem de esperar e nem de que tratem mal pessoas que trabalham em balcão de atendimento; e que gosta de bater com os nós dos dedos em extintores de incêndio e ouvir o som da reverberação interna do metal lá dentro e do cheiro de cebolas refogadas. Ou, em outras palavras há que se dizer que era um merda, ou um herói que dela não era o homem, apesar de super. Ou hei de morrer incógnito, como me é de direito, por nascença.
(plágios)
